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A história de quem escolheu escrever a própria história: conheça Luis Nascimento

Foto do escritor: Guilherme Inácio dos santos
Guilherme Inácio dos santos
25 de set.
7 min de leitura
Arquivo pessoal / Luis Nascimento
Arquivo pessoal / Luis Nascimento

“Se a história é nossa, deixa que nóis escreve” é a frase de Renan Inquérito, na música “Poucas Palavras”, em que ele defende os valores da literatura marginal e da periferia. Para Luís Nascimento, 31, essa é a inspiração e a visão que o movem para fazer jornalismo para as quebradas de São Paulo. “Eu vivo naquele local, então ninguém melhor do que eu para falar sobre ele”.


Morador de Diadema, Luís é filho de Francisca, merendeira de escola pública, e de Paulo, confeiteiro que trabalha desde os 12 anos de idade, como sempre se apresenta. Formado em 2019 pela Universidade Federal do Pampa (Unipampa), desde então vem se especializando em jornalismo periférico, com a missão de cobrir as periferias e afastá-las dos estereótipos atribuídos pela grande mídia.


Na infância, por ser filho de merendeira, Luís morou por um período dentro de uma escola, onde seus pais trabalhavam na zeladoria. Além de representar uma importante contribuição para a renda familiar, já que a família não precisava pagar aluguel em troca do trabalho, a experiência também aproximou Luís do ambiente educacional e estimulou sua curiosidade. Foi nesse período que começou a construir as primeiras ideias sobre o que gostaria de fazer no futuro. “Desde pequeno eu me considerava diferente de outras crianças, enquanto elas estavam vendo TV Globinho, eu estava vendo documentário na TV Cultura”.


No ensino médio, Luís conta que Denis, seu professor de arte, o ajudou a seguir o caminho que definiria sua vida: o jornalismo. No primeiro vestibular, tentou ingressar em duas universidades do Rio de Janeiro, a UFF (Universidade Federal Fluminense) e a UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro). No ano seguinte, prestou vestibular para duas universidades do Sul do país, a UFSM (Universidade Federal de Santa Maria) e a Unipampa (Universidade Federal do Pampa), optando pela segunda e, com isso, o  próximo desafio foi deixar São Paulo e ir para o Sul do país para cursar a faculdade.


“Quando nós crescemos em um bairro periférico, você acaba se limitando a muita coisa, como: eu nunca vou conseguir fazer uma faculdade porque eu não tenho grana”, conta Luis, que, após a aprovação, precisava de uma maneira de custear a viagem e a moradia.


A solução veio por meio de uma publicação no X, antigo Twitter. Após contar que havia sido aprovado na faculdade, mas enfrentava dificuldades para custear a viagem e a moradia, Luís recebeu o contato de uma pessoa que também vinha da periferia e apresentou a ele o auxílio permanência da universidade, que ajudava com R$ 230 para aluguel e R$ 130 para transporte. Além disso, tinha acesso gratuito ao bandejão. Assim, conseguiu se manter durante os quatro anos de faculdade, retornando a Diadema apenas nas férias para visitar a família.


A chegada ao Sul também foi marcada por diferenças culturais e sociais. Além do frio, Luís se surpreendeu com a presença de cavalos nas ruas e com as vestimentas típicas do povo gaúcho. “Eu lembro até hoje da primeira vez que eu cheguei na faculdade, desci do ônibus e eu vi aquela pessoa com toda aquela indumentária de gaúcho. Achei que só existia em filme, até pensei: ‘Nossa, as pessoas se vestem assim?'".


Arquivo pessoal / Luis Nascimento
Arquivo pessoal / Luis Nascimento

Na universidade, esperava encontrar muitos estudantes de baixa renda, mas percebeu que eles eram minoria e que a diferença social era grande. “Tinham pessoas da minha sala que não comiam no bandejão da faculdade porque não gostavam da comida, então saíam em seus carros próprios com 18 anos, iam para o centro da cidade e gastavam 40 reais na comida”. Apesar disso, aproximou-se das periferias da cidade para desenvolver trabalhos acadêmicos e produziu pautas como uma reportagem sobre um aterro sanitário e uma investigação dentro de uma olaria.


Essas experiências também o influenciaram na escolha de seu TCC. Após pesquisar sobre questões relacionadas às periferias, outro fator importante para sua decisão foi uma palestra de Anderson Meneses, jornalista da Agência Mural. Na época, Anderson trabalhava no Catraca Livre e comentou sobre um projeto que estava começando, a Agência Mural. 


Mesmo sem ter um projeto definido, sentou-se com sua professora e orientadora, Eloisa, e chegou à conclusão de que faria um produto sobre educomunicação voltado ao público periférico, algo em que havia trabalhado anteriormente em um estágio, resultando em uma websérie de seis episódios chamada Massa em Conexão. Esse é o mesmo projeto de mestrado que desenvolve atualmente, mas com uma abordagem voltada à acessibilidade comunicativa, trabalhando com vídeos acessíveis para pessoas com deficiência visual.


Na vida profissional, em 2017, Luís fez sua primeira tentativa de entrar no jornalismo periférico, por meio de um processo seletivo da Agência Mural, porém não foi selecionado, devido ao grande número de inscrições e à presença de jornalistas mais qualificados concorrendo à vaga.

Mas, em 2019, já com mais experiência na área e formado, conseguiu ser aprovado na Mural, onde permaneceu até 2023, participando ativamente da produção de pautas e pesquisas no período, uma experiência que mudou a sua vida e o guia até hoje.


“Logo que eu entrei na Mural, a gente tinha uma parceria com a Record, em um projeto chamado Giro na Quebrada, e o filho do Datena era o âncora do jornal e puxava nossas matérias, então eu trabalhei muito com cultura, meio ambiente, fiz muitas pautas legais nessa época. Além disso, a gente tinha nosso blog hospedado na Folha de SP, então eu escrevi muito para o blog da Folha e para o Guia da Folha”, explica um pouco sobre o início dele.


Além disso, Luis integrou a equipe fixa da Mural, contribuindo para a implementação de recursos de acessibilidade comunicativa no site. Durante esse período, também participou de aulas com profissionais do Facebook, adquirindo conhecimentos sobre a plataforma e contribuindo para o desenvolvimento de um site mais acessível e inclusivo.


Além de contar com orgulho sobre o período em que trabalhou na Mural, Luís destaca como foi importante sua entrada no jornalismo periférico. Como tinha a experiência de leitor e percebia que sua quebrada era retratada pela grande mídia, muitas vezes de maneira estereotipada. Trabalhar do outro lado permitiu-lhe contar as histórias que acontecem nesses locais e mostrar que não é apenas o descaso do poder público ou a violência que fazem parte da realidade dos bairros periféricos.


“Eu conheço as pessoas que transitam naquele local, eu pego busão naquele local, vou na padaria, então eu sei as histórias que acontecem lá. Eu conheço muitas pessoas que trabalham todos os dias, que vai estudar, chegam tarde em casa e precisam cuidar da família. Por isso precisam ser valorizadas, e não merecem ser estereotipadas como faveladas, de uma forma do mal, só porque mora em um bairro em que o poder público não chega”.


Luís ressalta ainda a importância de informar os moradores da periferia e o poder do jornalismo para denunciar o descaso do poder público com as quebradas. Para ele, o poder de voto de uma pessoa que mora na periferia e de uma pessoa que mora na Avenida Paulista é o mesmo. A diferença está na velocidade com que os problemas são solucionados. Segundo ele, se há um buraco no meio da Avenida Paulista, a prefeitura resolve o problema em pouco tempo. Já em uma quebrada, o mesmo problema pode levar meses ou até anos para ser solucionado.


Arquivo pessoal / Luis Nascimento
Arquivo pessoal / Luis Nascimento

Logo após sua experiência na Agência Mural, Luis foi selecionado, em 2022, para o programa de trainee do Estadão, o Focas, integrando a 32ª turma. No entanto, com o passar do tempo, a admiração inicial pela grande redação deu lugar à insegurança. Luis passou a questionar se realmente merecia estar ali, acreditando que pessoas com maior poder aquisitivo, experiência em grandes veículos ou formação no exterior seriam mais preparadas. Diante disso, conversou com sua chefe, Carla, que explicou que sua origem periférica e a experiência com essas comunidades eram justamente alguns dos motivos de sua escolha. Ao final, ela o tranquilizou: “Quem olha muito para o lado esquece de olhar para frente. Se você está aqui, é porque você merece”.


Durante o programa de trainee, os participantes passavam por cinco editorias que estavam disponíveis para escolha. Uma área que não fazia parte das opções oferecidas aos trainees, entretanto, chamou a atenção de Luis: um produto de branded content, desenvolvido em parceria com a 99, chamado Expresso na Perifa. No projeto, ele conseguiu produzir diversas pautas e, posteriormente, também realizou alguns trabalhos como freelancer para a iniciativa.


A experiência também mostrou a Luis as diferenças entre produzir conteúdo sobre a periferia dentro de um projeto dedicado ao tema e fazer esse tipo de cobertura em uma grande redação. Mesmo quando a pauta estava relacionada à realidade periférica, havia uma resistência maior dentro do jornal para que determinados assuntos fossem considerados relevantes. 


“Você tem que provar 100 vezes mais que aquela pauta é importante, enquanto na Mural, por exemplo, é possível falar da periferia com mais liberdade”, explica o jornalista.


Após o fim do período de trainee, Luis passou a atuar na cobertura das eleições, em uma rotina intensa que começava às três da tarde e terminava por volta das quatro da manhã. Depois das eleições, foi direcionado para a cobertura de educação, em uma parceria com o Terra, com a meta de alcançar 120 mil pageviews mensais, número que, considerando a estrutura do portal, era possível atingir em cerca de duas semanas. A rotina, no entanto, seguia desgastante: Luis chegava em casa por volta das seis da manhã, enquanto sua companheira precisava sair para trabalhar às sete. Além disso, após cumprir as metas estabelecidas, era frequentemente realocado para editorias que não tinham relação com a área para a qual havia sido contratado.


Arquivo pessoal / Luis Nascimento
Arquivo pessoal / Luis Nascimento

A decisão de deixar o Estadão veio, então, não apenas pela busca por uma oportunidade financeiramente melhor, mas também pela necessidade de melhorar sua qualidade de vida e atuar em uma área com a qual se identificava. Luis passou a trabalhar no Todos Pela Educação, organização para a qual já havia produzido pautas durante sua passagem pelo jornal. Sem a necessidade de cumprir plantões, conseguiu dedicar mais tempo à família, retomar os estudos e iniciar o mestrado no programa PROLAM da USP, além de encontrar maior satisfação profissional na nova função.


Atualmente, Luis atua como Analista de Comunicação na Rede Potência Periférica, onde trabalha aproximando pequenos empreendedores de periferia a grandes empresas. O objetivo é dar visibilidade a esses empreendedores no mercado e conectá-los a possíveis financiadores, ampliando suas oportunidades de crescimento.


Para o futuro, Luis tem como metas concluir o curso de Direito, no qual ingressou recentemente, finalizar seu projeto de mestrado, que é o "Enxergar com Palavras: A Educomunicação e a Audiodescrição como Ferramentas de Combate aos Desertos de Notícias nas Periferias", e enfrentar o que considera o maior desafio de sua vida: ser pai. Sua filha está prevista para nascer em janeiro e, diante dessa nova etapa, ele também carrega o desejo de contribuir para uma sociedade melhor, pensando não apenas no futuro dela, mas também no de outras crianças.


“Quero conseguir deixar um pouquinho da sociedade melhor para ela e para outras crianças. Acho que a gente não consegue mudar tudo, mas, se a gente mudar o pedacinho do território que a gente pisa todos os dias, a gente já colabora”, finaliza Luis.


1 comentário


Caroline Oliveira
Caroline Oliveira
16 de out.

Que alegria encontrar essa reportagem! Estudei com o Luís no ensino médio e também tive o privilégio de ser aluna do Dênis.


Fico muito feliz em conhecer um pouco mais do trabalho que o Luís vem realizando. É inspirador ver alguém que fez parte da nossa realidade se dedicando a algo que vai muito além de uma conquista pessoal e que pode fazer diferença na vida de tantas pessoas.


Luís, desejo de coração que suas ideias e seu trabalho cheguem cada vez mais longe, que encontrem pessoas dispostas a ouvir, refletir e também fazer a diferença. Que todo esse esforço se traduza em frutos para a sociedade e que você nunca perca a vontade de fazer aquilo em que acredita.


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