Conheça Seu Miguel, parte viva da Vila Prudente
- Andressa Schettini

- 11 de mai.
- 5 min de leitura
Entre trabalho, família e memórias, Seu Miguel traduz a transformação de um dos bairros mais tradicionais da zona leste de São Paulo
Por Andressa Schettini e Nicolle Olivares

Miguel José de Moraes Neto começa o dia cedo e, ao lado da esposa, percorre as ruas da Vila Prudente, um dos bairros mais tradicionais da zona leste de São Paulo, vendendo Yakult em um trajeto que faz parte de sua história. Ao longo do caminho, é difícil andar sem ser reconhecido: chamado por muitos de “vereador” pelo seu jeito de ser, ele acena, sorri e puxa conversa com os moradores. Aos 72 anos, entende de cada cantinho do bairro e mantém a mesma disposição de sempre.
Conhecido como “Seu Miguel”, ele carrega quase uma vida inteira na Vila Prudente. Apesar de ter nascido no Mato Grosso do Sul, foi no bairro da zona leste que cresceu e construiu sua história, desde os primeiros anos de vida. “Eu amo esse bairro, além de ter crescido aqui, também vi seu crescimento. Porque na minha época não tinha nada. Vila Prudente, para mim, eu considero o bairro que eu nasci.”
Essa ligação especial com a região é reflexo direto de sua trajetória, desde a infância. Aos 9 anos, perdeu sua mãe em um acidente no caminho da igreja e, caçula entre os cinco irmãos, passou a ser criado por eles, uma relação que até hoje relembra com muita admiração: “Naquela época, a gente respeitava muito os irmãos mais velhos. O que eles falavam era lei”, conta.
Assumiu responsabilidades de gente grande desde cedo e os estudos ficaram para trás, antes de serem concluídos. Aos 14 anos, Seu Miguel começou a trabalhar: “Nunca fiquei parado, fazia sempre uns bicos”, conta com orgulho. Trabalhar, para ele, é parte de quem é. Hoje, mesmo aposentado, faz questão de seguir na batalha todos os dias.
Foi nesse percurso que Miguel também construiu o que considera seu maior patrimônio: sua família. Conheceu sua esposa em 1978, na própria Vila Prudente, e se lembra desse encontro com um sorriso no rosto. “Essa peça passa na frente de onde eu trabalhava, com uma colega, e Deus me falou ‘ai ó’. Quando voltei para casa ela estava lá. Já era amiga da minha sobrinha, e eu nem sabia”, conta.
No ano seguinte, eles se casaram e, desde então, nunca mais se separaram. Pai de quatro filhas, fala delas e dos netos com um orgulho que aparece no jeito de contar, da mesma forma que fala da fé, sempre presente no dia a dia e em todas as suas escolhas.

Quando comenta sobre o início do bairro, as memórias vêm fácil e o tom muda. “Sou da época que tinha esgoto a céu aberto, hoje, graças a Deus, melhorou muito. A energia chegava à noite e ia embora pela manhã, a gente ficava o dia inteiro sem. Água nem tinha, pegava na torneirinha”.
É desse mesmo lugar de vivência que vem seu forte senso de comunidade. Disposto a fazer a diferença, Seu Miguel participou de mobilizações em defesa do bairro. Onde hoje é o Clube Vera Cruz, tradicional clube de futebol amador, antes havia um campo de terra próximo a um rio, que corria risco de desaparecer. Ele lembra da mobilização dos moradores para manter o espaço: “Era um campinho para as crianças brincarem, com um rio do lado, e eles queriam tirar a terra do rio para fazer uma galeria, jogando dentro do campo. Fizemos uma corrente para não fazerem isso, aí ficamos lá, e quando terminou foi até bom, ganhamos uma arquibancada”, recorda.
De lá para cá, acompanhou de perto o crescimento urbano, a chegada da infraestrutura básica e as mudanças sociais. O bairro cresceu, se estruturou e Seu Miguel reconhece as mudanças, mas a percepção de quem viveu tudo permanece. “A Vila Prudente sempre foi importante, nunca foi esquecida. É um bairro muito familiar, muito bom. Mudou para melhor, o pessoal passa aqui e vê a mudança.”
Miguel também procura se manter informado sobre o bairro. Leitor dos jornais locais, ele cita um que viu mudar ao longo dos anos, de “Gazeta da Vila Prudente” à atual “Folha da Vila Prudente": “Acho importante ter um jornal da região, porque um jornal novo é conhecimento novo. Gosto muito de ler isso, a gente fica mais atualizado”, explica.

Em meio a tantas mudanças ao longo dos anos, alguns encontros também marcaram seu caminho. Por meio de uma de suas filhas, conheceu o Vozes das Periferias, um instituto que utiliza a educação como ferramenta de transformação social. Chegou ao projeto como porteiro, mas o que construiu foi muito maior do que sua função. Criou laços, formou ali uma família e encontrou um novo sentido na rotina. “O Vozes me renovou muito. Eu não vivi isso lá atrás. Hoje não posso sair na rua que todo mundo me reconhece, as crianças me chamam de tio. Falo para eles aqui, eles são mais que família para mim. A Leticia então, misericórdia.”
O Vozes das Periferias é conhecido na região por transformar a vida das pessoas da comunidade por meio da cultura, do esporte, da qualificação profissional e da geração de renda. Com Seu Miguel, ainda que de um jeito diferente, o impacto também aconteceu quando, em uma das noites de trabalho, foi convidado pelo professor do curso de fotografia para ser modelo, momento que lembra com alegria: “Fiz a postura de segurança. As meninas até hoje zoam comigo ‘Por que dessa postura?’ e respondo, ‘Ô fia desculpa, pensei que tava na portaria’”, conta entre risadas.
A vivência de Seu Miguel se conecta com a essência do projeto, que parte da ideia de que a comunicação pode transformar vidas e ampliar possibilidades. No caso dele, essa transformação aconteceu no encontro com o outro, no reconhecimento e no sentimento de pertencimento construído no dia a dia.
Durante a pandemia, precisou se afastar por conta da idade e, mesmo assim, o vínculo não se rompeu. Surgiram convites para trabalhar em outros veículos, mas sempre recusa: “Outros lugares me convidam para trabalhar, mas falo, não vou trabalhar se não for com eles (Vozes das Periferias). Gosto demais daqui.”
Ao longo de sua trajetória, Seu Miguel se tornou uma figura cada vez mais conhecida nas ruas da Vila Prudente. Sua história se mistura à própria história do bairro, um lugar que cresceu e se transformou ao longo do tempo. Querido por muitos, Seu Miguel é alguém que, à sua maneira, contribuiu para formar o que é a parte viva dessa construção. No fim do dia, enquanto caminha por essas ruas, carrega consigo um pedaço da Vila Prudente.



Comentários