
QUEBRADA INFORMADA
Bem-vindo ao Quebrada Informada, onde a narrativa da periferia ganha destaque.
Acompanhe nossas reportagens e conteúdos que trazem à luz histórias que importam e impactam comunidades.
Navegue por capítulos:
No Brasil, sete em cada dez pessoas já se depararam com algum tipo de notícia falsa, segundo pesquisa realizada pelo DataSenado (2024). Em um país imerso nas fake news, o jornalismo periférico é uma alternativa relevante no combate à desinformação nas comunidades.
Esse modelo de comunicação pode ser compreendido como uma forma de produção jornalística feita por e para moradores de territórios periféricos. Desenvolvidos, em geral, de maneira independente, esses veículos buscam democratizar o acesso à informação, valorizar narrativas locais e fortalecer o protagonismo das periferias.
Historicamente, o jornalismo periférico é retratado como um contraponto à mídia tradicional, ao propor a desconstrução de estigmas e estereótipos associados às periferias.
A origem do modelo pode ser associada ao fortalecimento da imprensa alternativa durante a ditadura militar (1964–1985). Com a censura imposta pelo regime, especialmente após o AI-5 (Ato Institucional n°5), os grandes veículos de comunicação ficaram sob forte controle estatal e o jornalismo alternativo surgiu como um dos principais meios de oposição, atuando como meio de questionamento, por meio de denúncias, críticas e circulação de informações que eram silenciadas pela mídia tradicional.
Nesse contexto, o jornalismo periférico surge como uma ramificação da imprensa alternativa, voltada à ampliação do acesso à informação em territórios historicamente negligenciados, onde a comunicação centralizada não consegue alcançar.
Onde tudo começou?

Para Olga Defavari, jornalista, professora de língua portuguesa e autora do livro Imprensa Alternativa no ABC: A História Contada pelos Independentes, a proximidade com o território e o uso de uma linguagem acessível favorecem a disseminação da informação pelos veículos periféricos, além de evidenciar a importância do protagonismo regional nesse contexto.
“Os jornais periféricos dão muito mais voz às pessoas e aproximam essa leitura. Neles, estão retratadas pessoas que você conhece, espaços que você conhece e uma linguagem que você conhece. Por isso, a tendência é que esse conteúdo ajude determinada população a se reconhecer”, comenta a autora.
Ao longo dos anos, a língua também evoluiu.
Junto com o jornalismo periférico, os termos utilizados para designar as comunidades mudaram com o passar do tempo. Mais do que nomes, cada termo reflete a visão política, social e jurídica de cada época, revelando como a percepção sobre esses territórios se transformou ao longo da história.
Deserto de informação, um mar de ignorância.
Com a internet e as redes sociais, o acesso à informação está a um clique de distância. Segundo levantamento realizado pelo IBGE, em 2025, estima-se que cerca de 168 milhões de brasileiros, o equivalente a 89,1% da população com 10 anos ou mais de idade, tinham acesso à internet.
O acesso, no entanto, não significa que a informação correta e confiável esteja sendo efetivamente consumida. É o que explica Henrique Silva, correspondente da Globo para a região de São Paulo e colaborador do Vozes das Periferias. O maior problema, segundo ele, é a falta da “verificação em duas etapas”:
"O principal problema é que muitas pessoas não fazem essa dupla verificação das informações nas redes sociais. Ou seja, não procuram checar e confirmar o que recebem. Muitas vezes, acabam aceitando conteúdos como verdades absolutas, sem questionamento".
Para Silva, esse é um dos papéis mais importantes do jornalismo da periferia. Ao estabelecer uma relação de confiança com a comunidade, os veículos de quebrada tornam-se disseminadores de informações de qualidade para a população:
“A nossa preocupação era como o jornalismo do Vozes das Periferias poderia contribuir para que as pessoas confiassem no que estão lendo, no que chega até elas.
Dentro do Vozes, as pessoas tinham mais confiança, principalmente aquelas que já conheciam a gente, que sabiam das oficinas, do trabalho que a gente fazia. Sabiam que aquilo estava sendo feito por gente profissional, por pessoas que checaram aquela informação, que entendem o que é uma informação verdadeira. Diferente de quando você recebe um áudio, um vídeo, sem saber de onde veio.”
O Brasil, porém, sofre com os chamados “desertos de notícias” em diversos municípios. No Sudeste, de acordo com o Atlas Jor, das 1.668 cidades da região, 830 não têm nenhum veículo noticioso dedicado à cobertura local.
Descubra no mapa os desertos de notícias na região sudeste. Todas as áreas coloridas são cidades sem a presença de jornalismo local. Quanto mais laranjas, mais baixo seu IDHM.
Fonte: Atlas Jor
Apesar do alto índice de regiões sem veículos locais, o jornalismo digital nas favelas apresentou um crescimento de 8,9% no ano de 2025, representando quase o triplo do surgimento de emissoras de rádio e TV (Atlas Jor, 2025).
Conheça no mapa alguns veículos de comunicação de quebrada na região sudeste. Clique em cada bolinha para saber mais sobre eles.
Fonte: Atlas Jor
O Vozes das Periferias e a transformação social
Entre eles, destaca-se o Vozes das Periferias (@vozesdasperiferias). Além de um veículo de comunicação periférico, ele é uma instituição social com ações voltadas para a Vila Prudente, bairro localizado na Zona Leste de São Paulo.
Criado em 2015 pelo jornalista Cesar Gouveia, o Vozes já impactou, ao longo dos seus 11 anos de história, mais de 500 mil pessoas da região com iniciativas voltadas à educação, esporte, cultura e acesso à informação.
A relação de Cesar com a comunicação começou ainda na escola, com a junção do seu gosto pela escrita e o incentivo dos professores. Nascido, criado e morador da Vila Prudente, ele encontrou no jornalismo não apenas uma profissão, mas uma ferramenta de mudança social. “A comunicação transformou minha vida, então eu acredito que ela possa transformar a vida de outros”, afirma.
A criação do Vozes das Periferias surgiu enquanto ele ainda cursava jornalismo, quando começou a contar histórias de moradores antigos, especialmente em um momento de fortes mudanças na região.
“O jornalismo periférico tem o dever de contextualizar a realidade do morador com respeito e responsabilidade. Nosso papel é informar com clareza, ouvir a comunidade e garantir que a verdade chegue sem distorções”, comenta Gouveia.
Cesar relata que busca aplicar no Vozes os conceitos do que considera jornalismo de qualidade, aquele que impacta positivamente seu público levando informação confiável e cumprindo, acima de tudo, seu papel social. Ele, neste contexto, introduz uma figura que representa, na prática, esse impacto: Seu Miguel.
Seu Miguel, hoje com 72 anos, é uma presença constante nas ruas da Vila Prudente e alguém cuja história se conecta com a do próprio bairro. Conhecido pela sua simpatia, ele construiu ao longo das décadas uma relação forte com a comunidade, marcada por trabalho, convivência e participação no crescimento da região.
A história dele com o Vozes começa em um emprego de porteiro no prédio do Instituto. Lá, Seu Miguel aproximou-se das ações sociais e encontrou um espaço de convivência, reconhecimento e troca, fortalecendo ainda mais sua relação com as pessoas da região.
Para conhecer mais as trajetórias de Gouveia e do Seu Miguel, confira seus perfis completos aqui.
